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26.12.11

De quando ficamos velhos


Ao ler no jornal uma declaração de uma artista conhecida que diz sentir muito medo de envelhecer, pensei comigo e para mim “não será o mesmo que temer beber água, sair de casa ou terminar o ano?” Estranho ouvir e ler tais comentários sem se imaginar velho, cheio de rugas e de netos. Porém, se tudo continuar rumando para isso, o comum deveria ser comemorar, no instante em que se pensa que nem metade disso poderia ter acontecido. Sem dúvida, o que nos faz cultivar esse pavor da idade, levando-nos até a mentir os números, esquecer as datas e evitar aniversários, nada mais são do que os efeitos midiáticos perfuradores: esses que nos acompanham todos os dias in TV, rádio, jornal, revista e internet. As linhas de cosméticos que se renovam mensalmente agradecem o esforço dos bonitões e das bonitonas da moda, pois o que se vê é sempre o resultado de muita dedicação ao corpo. 
E aí sim é que se entende o porquê do medo da velhice. Porque ficar velho não significa viver para criar os filhos, fazer a viagem dos sonhos, buscar a felicidade em alguém e/ou algum lugar. As marcas de expressão ganharam nova significação, tão trivial que se espalha como um parasita por esses espaços comunicativos. E aí, ao contrário, o que passa a ser trivial é a velhice, tendo em vista que “velho”, adjetivo quase em extinção, se me permitem o trocadilho, está tão obsoleto, porque é pejorativo, porque deixou de ser algo comum à idade, como é a água quando se tem sede, como é a rua quando se precisa sair de casa ou como é o novo ano quando este termina. Espero lembrar-me disso daqui a trinta anos ou, quem sabe, até menos.


20.12.11

Onde esconder minha cara?


[...] Onde esconder minha cara? O mundo samba na minha cabeça.
Triângulos, estrelas, noite, mulheres andando,
presságios brotando no ar, diversos pesos e movimentos me chamam a atenção 
o mundo vai mudar a cara,
a morte revelará o sentido verdadeiro das coisas.
Andarei no ar.
Estarei em todos os nascimentos e em todas as agonias,
me aninharei nos recantos do corpo da noiva,
na cabeça dos artistas doentes, dos revolucionários.
Tudo transparecerá:
vulcões de ódio, explosões de amor, outras caras aparecerão na terra,
o vento que vem da eternidade suspenderá os passos
dançarei na luz dos relâmpagos, beijarei sete mulheres
vibrarei nos cangerês do mar, abraçarei as almas no ar
me insinuarei nos quatro cantos do mundo.
[...]
Murilo Mendes escreveu aos 24 anos, na publicação Antropofagia.

19.12.11

Como?


Este ano participei de um congresso que me rendeu bons frutos. Um deles foi conhecer melhor o trabalho de adaptação de uma obra literária para o cinema. Assim, descobri, depois desse momento sombrio – porque não tive muito tempo para ir ao cinema ou pesquisar bons filmes que estrearam – um filme brasileiro que é uma adaptação da obra de Myriam Campello, chamada Como Esquecer. O filme, que tem o mesmo nome do livro, traz Ana Paula Arosio no papel de uma professora universitária que se separou da amada depois de dez anos.

Os poucos que me conhecem sabem que eu não assisto a trailers se não for por acaso, como no cinema, ou quando algum desavisado insiste em me mostrar. Então, baixei Como Esquecer confiando no que ouvi na palestra de uma das roteiristas e em um trecho que ela apresentou para nós. Não me arrependi.


Primeiro porque me surpreendi com a quantidade de melancolia que a personagem transmitia a cada cena, sempre tentando esfriar toda a dor que sentia através de muita inimizade e rancor. Segundo porque não sabia que ela era professora de literatura, o que me deixou mais feliz com os diálogos e suas atitudes.

Mais um motivo para assistir Como Esquecer: a trilha que conquista no minuto inicial com Elis Regina cantando Retrato Em Branco e Preto.

Entendeu por que eu vim correndo postar sobre o filme? Além disso, a maneira como é tratada a relação lésbica, tão sutil e intensa, parece-me uma vitória do cinema, seja brasileiro ou não, que tinha imagens gays bem mais caricaturais, sempre relacionadas ao sexo e quase nada além. Eis a maneira mais correta de lidar com as diferenças de sexo, cor, religião, qual seja: naturalmente.  


Saiba mais no site oficial do filme.

16.12.11

Sumiços


Este blog entrou em coma há algum tempo! Porém, na sua força de manter-se vivo, está de volta, obrigando sua autora-dona a levantar toda essa poeira e dar explicações aos pouquíssimos que por aqui passaram alguma vez na vida digital.

Os motivos são técnicos: preguiça e falta de tempo. Tudo o que eu sempre reclamei por aqui, mas dessa vez em dosagens tão fortes que me fizeram desaparecer por completo. O término do meu curso de Letras-Português é uma causa real, acompanhada de muitas outras.

Aos poucos vou dizendo aqui todas as novidades. Por enquanto, volto para dizer, pelo meu bem, que fico. Somente em prol da minha felicidade que pensei mesmo em não dar fim ao Zzr porque, ao que parece, sou minha leitora mais fiel. Mas não se acanhe, e seja bem-vindo novamente.

8.5.11

Tempos curtos, tempos de curtas

Nos últimos tempos, tenho pesquisado curtas-metragens e gostado de muitos. Um deles, chamado "Samparkour" me surpreendeu pela ideia: "parkour" significa "percurso" em francês e o curta transmite exatamente essa ideia, ou seja, um percurso pela cidade de São Paulo. Pra quem nunca conheceu Sampa, assim como eu, ou mesmo quem já conhece, vale a pena dar uma olhadinha:




Duas dicas: Oficial Samparkour ; Porta Curtas .

P.S.: Essa aqui não é bem uma dica, mas mais um desses sites que 'flutuam' nesse meio virtual. Eu me aventurei e gostei muito das imagens que podemos encontrar por lá: http://weheartit.com/ziguezaguear


21.4.11

Uma torta história capixaba

Pois é. Se um dia eu pensei fazer disso aqui um blog e postar constantemente para alguns lerem, hoje eu já não posso pensar o mesmo. O motivo é o de sempre: a minha falta de tempo e de disposição. Aproveitando o feriado e o que ele pode me proporcionar - ou seja, tempo e até disposição – venho aqui deixar bem claro que ainda tenho sentimentos (sim, muito intensos!) por este blog. Então, enquanto como uma deliciosa torta capixaba, com seus pedaços de palmito devidamente retirados, escrevo uma coisa para vocês:

Na semana passada tive o prazer de assistir a uma homenagem a José Carlos Oliveira, grande cronista, contista e romancista, principalmente da década de 60, e – o que é melhor – capixaba. Carlinhos Oliveira, como era conhecido no Brasil inteiro, morria há 25 anos e deixou um legado impressionante que ainda pode ser conferido na Biblioteca Pública do Espírito Santo. Como diz João Paulo Cuenca neste vídeo, Carlinhos foi um cronista que por aí já não pode se ver mais, capaz de unir crítica e lirismo com muita categoria e leveza. Pude confirmar isso através do livro que ganhei de Regina, a grande organizadora e responsável pela guarda desse tesouro literário. O “Diário da Patetocracia” é política, futebol e sarcasmo com muito gosto, muito gosto de continuar lendo até o fim – e vontade de ler novamente:

“Quando um homem chega em casa e encontra os seus filhos com fome, ele tem o direito de conferir ao Estado a forma de um castelo kafkiano. E toda vez que ocorre um golpe de estado, a primeira providência dos novos poderosos é desentrelaçar a multidão, é o toque de recolher e a proibição de ajuntamento nas ruas, é a solidão obrigatória. E tudo isso é tão elementar, pobre Nelson Rodrigues!” (p.137 de o Diário da Patetocracia).

15.2.11

Sarah aos 22: discernimento.




O título dessa postagem faz referência a este livro. Eu quase nada tenho a ver com Kitty, uma jovem despojada, rica e ousada. Disse quase porque Kitty tem 22 anos nessa aventura que a deixou conhecida por aqui (leia-se, aqui em Vitória-ES). Hoje eu já posso dizer que tenho um par de dois belíssimos e que nem sei se verão tanto divertimento ao longo do ano. Será que pode ser divertido fazer uma monografia? Kitty diria: "Sorry, darling. Isso pra mim é um porre!". Pois é, Kitty. A partir desses 22 tem-se muita coisa.

Mas a felicidade é feita de vidro e pode, facilmente, se quebrar. E aí, Kitty, fazer o quê com os cacos?



30.1.11

A cruz sem malta

Somente duas vezes eu cheguei a falar de futebol aqui neste blog, que é praticamente um blog literário. Como eu também sou praticamente uma vascaína, devo falar do meu adorável time e, ainda, fazer considerações. Praticamente vascaína significa: dizer que torço pelo time, mas não entendo nem o que ele faz dentro de campo, ou seja, não sei pelo quê está sendo jogado, para quê tanto suor e o porquê de querer gols. Outro detalhe: demorei muito a entender o que as pessoas queriam dizer com “nossa, como você é sofredora” após receberem a notícia de que meu escolhido time era o Vasco. A verdade é que eu sempre achei a cruz de malta tão bonitinha e aquelas caravelas muito originais.


Pois bem, atualmente a imensa torcida vascaína está abalada, eu diria. E só isso me fez dar mais atenção ao time – quer dizer, se ele estivesse ganhando todas, eu não estava nem aí. Para tentar melhorar a moral de nós, torcedores sofredores (desconhecedores), fui descobrir que o Vasco já ganhou 110 títulos. Não vem ao caso saber os títulos dos outros times, obviamente. Imagina que o time já esteve lá no fundo do poço (significa rebaixado, o que parece o pior dos castigos futebolísticos) e voltou com a corda toda. Ganhou a chiquérrima Copa Libertadores de 1998. Sem contar os incontáveis campeonatos brasileiros.



Por isso eu me pergunto: o que está acontecendo com o Vasco? A torcida já não fica no estádio até o final. Os fanáticos torcedores estão abandonando a cruz de malta. Coitadinhos. O que resta de um time sem torcida? A palavra “malta” significa “bando, multidão”. Então, estamos prestes a sermos apelidados de “a cruz sem malta”. Eu, torcedora incansável, estou abalada. Ok, confesso o meu hiperbolismo, mas vamos renovar essa cruz, ou melhor, cruzar os dedos para que ao menos a torcida continue cantando de coração que essa cruz de malta é mesmo nosso pendão.   


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