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24.12.09

Natal, já?

Sentindo o cheiro do galináceo dourando no forno, que acaba por somar-se ao calor insuportável desse dia 24, venho desejar a todos aquilo tudo que, habitualmente, se deseja nesta época do ano: Feliz Natal e, também, Feliz Ano Novo. Mas, como quem não quer nada, deixo um trecho de um dos mais conhecidos contos de Machado, já que foi o conto que me veio à cabeça por se passar numa véspera de natal. Você, por acaso, se recorda de algum outro?

MISSA DO GALO

Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos à missa do galo, preferi não dormir; combinei que eu iria acordá-lo à meia-noite. A casa em que eu estava hospedado era a do escrivão Meneses, que fora casado, em primeiras núpcias, com uma de minhas primas. A segunda mulher, Conceição, e a mãe desta acolheram-me bem, quando vim de Mangaratiba para o Rio de Janeiro, meses antes, a estudar preparatórios. Vivia tranqüilo, naquela casa assobradada da rua do Senado, com os meus livros, poucas relações, alguns passeios. A família era pequena, o escrivão, a mulher, a sogra e duas escravas.


Costumes velhos. Às dez horas da noite toda a gente estava nos quartos; às dez e meia a casa dorma. Nunca tinha ido ao teatro, e mais de uma vez, ouvindo dizer ao Meneses que ia ao teatro, pedi-lhe que me levasse consigo. Nessas ocasiões, a sogra fazia uma careta, e as escravas riam à socapa; ele não respondia, vestia-se, saía e só tornava na manhã seguinte. Mais tarde é que eu soube que o teatro era um eufemismo em ação. Meneses trazia amores com uma senhora, separada do marido, e dormia fora de casa uma vez por semana. Conceição padecera, a princípio, com a existência da comborça; s, afinal, resignara-se, acostumara-se, e acabou achando que era muito direito. Boa Conceição! Chamavam-lhe "a santa", e fazia jus ao título, tão facilmente suportava os esquecimentos do marido. Em verdade, era um temperamento moderado, sem extremos, nem grandes lágrimas, nem grandes risos. No capítulo de que trato, dava para maometana; aceitaria um harém, com as aparências salvas. Deus me perdoe, se a julgo mal. Tudo nela era atenuado e passivo. O próprio rosto era mediano, nem bonito nem feio. Era o que chamamos uma pessoa simpática. Não dizia mal de ninguém, perdoava tudo. Não sabia odiar; pode ser até que não soubesse amar. Naquela noite de Natal foi o escrivão ao teatro. Era pelos anos de 1861 ou 1862. Eu já devia estar em Mangaratiba, em férias; mas fiquei até o Natal para ver "a missa do galo na Corte". A família recolheu-se à hora do costume; eu meti-me na sala da frente, vestido e pronto. Dali passaria ao corredor da entrada e sairia sem acordar ninguém.
Tinha três chaves a porta; uma estava com o escrivão, eu levaria outra, a terceira ficava em casa.
- Mas, Sr. Nogueira, que fará você todo esse tempo? perguntou-me a mãe de Conceição.
- Leio, D. Inácia.
Tinha comigo um romance, os Três Mosqueteiros, velha tradução creio do Jornal do Comércio. Sentei-me à mesa que havia no centro da sala, e à luz de um candeeiro de querosene, enquanto a casa dormia, trepei ainda uma vez ao cavalo magro de D’Artagnan e fui-me às aventuras. Dentro em pouco estava completamente ébrio de Dumas. Os minutos voavam, ao contrário do que costumam fazer, quando são de espera; ouvi bater onze horas, mas quase sem dar por elas, um acaso. Entretanto, um pequeno rumor que ouvi dentro veio acordar-me da leitura. Eram uns passos no corredor que ia da sala de visitas à de jantar; levantei a cabeça; logo depois vi assomar à porta da sala o vulto de Conceição.
[...]
Retirado do site Biblioteca Virtual.

Pra quem preferir, existem outras alternativas:
b) Vídeo do Youtube:



14.12.09

Você já achou um livro?

Se você respondeu que sim, saiba que esse livro pode ter sido perdido de propósito!

Perder um livro de propósito faz parte de um projeto encontrado no site Livr.us, que trouxe a idéia para o Brasil, depois de rolar pelo mundo afora. Achei estranho no começo, mas parece dar super certo. Ainda não sei se vou participar, mas é uma ótima iniciativa para o incentivo à leitura. E você, o que acha?


Veja também:

11.12.09

Battle is not over

Em uma das minhas aventuras pelas línguas francesa, inglesa e portuguesa, conheci a voz do cantor senegalês Youssou N'Dour. Grande descoberta pra mim, já que eu não imaginava que o cantor fosse tão renomado. De quebra, acabei conhecendo a cantora francesa Zazie. Portanto, veja o resultado dessa mistura de sons, línguas, raças, e por aí vai:

8.12.09

Literatura também é Capixaba

Desde que entrei para o curso de Letras-Português, comecei a receber consideráveis doses de literatura capixaba: os congressos, os encontros, as pessoas, as conversas, as aulas, os dias, a universidade, os eventos, tudo. Tudo o que girou ao meu redor durante todo esse tempo – lá se vão dois anos – esteve de alguma forma relacionado com a literatura do Espírito Santo. E foi assim por uma razão super simples: eu reconheci de cara a imensidão das obras, os seus valores, e passei a gostar disso.


Foi por isso que, ao fazer parte de um projeto de Roda de Leitura durante os dois últimos meses, na Biblioteca Pública do Espírito Santo, a primeira coisa que me veio à cabeça foi: Literatura Capixaba. Quantos de nós já lemos 10 livros de autores da nossa terra? E quantas crianças sabem dessa “nossa” presença no mundo da leitura? Daí surgiu o Por Conta da Casa, que me acendeu ainda mais a vontade de continuar nesse caminho. Tive a oportunidade de conhecer os contos fantásticos de Fernando Tatagiba, assim como as cartas infantis de José Carlos Mattedi. Também estou chegando ao final do romance Lhecídio, de Paulo Roberto Sodré.

“Mas através da literatura também podemos resgatar princípios, voltar às origens do que de fato e direito são nossos, e estão completamente excluídos e ignorados. Estar ao lado de um movimento de sentimento regionalista, ávido de transformações e mobilizado pela difusão da cultura do Espírito Santo, é muito pouco. É preciso estar dentro dele e contribuir para algum realce significativo”. Trecho do projeto “Por Conta da Casa”.

Quer aproveitar?




23.11.09

ensaio


"[...] uma vontade de enrolar-se sobre si mesma, os olhos, ah, sobretudo os olhos, virados para dentro, mais, mais, mais, até poderem alcançar e observar o interior do próprio cérebro, ali onde a diferença entre o ver e o não ver é invisível à simples vista."
de Ensaio sobre a cegueira, J.S. p. 158

13.7.09

We will rock you, all right?!

A primeira notícia do dia foi: hoje é o Dia Mundial do Rock. Minha memória sempre desprezou a importância das datas e, mesmo que eu lembrasse, nem sei o que poderia ser diferente se soubesse antecipadamente do dia do rock. É o tipo de data que você fica feliz pela existência, já que se torna importante de alguma forma, mas não mudará nada em sua vida. Quem sabe?


Liguei a tv e assisti dois shows comemorativos: um do Bon Jovi e outro da Alanis Morissette. Me senti jovem demais. Cadê o rock para comemorar o dia mundial do rock? Sou de uma geração que pensa que uma coisa é uma coisa, sendo que essa coisa foi inventada por outra geração que, na verdade, inventou a coisa que não é mais a mesma coisa. Não é por nada não, mas qual é a intenção de comemorar o aniversário sem o aniversariante?





Tudo bem. Eu nem sei quem foi o fundador disso tudo, mas eu ainda lembro dos discos de vinil tocando todas as manhãs. Como esquecer aquela voz grave que quase recitava “Love me tender, love me sweet...”? Ou a guitarra acompanhando aquele “Hey, Joe...”? Se era minha mãe quem repetia isso enquanto fazia o almoço ou meu pai quem cantava aquilo no banheiro, o fato é que eu não deixava de escutar. Uma hora você cresce e percebe quanta coisa você perdeu. O que falar de Janis Joplin, Led Zeppelin, Pink Floyd, Rolling Stones, Bob Dylan, Dire Straits e The Beatles? Ou então de Raul Seixas, Jovem Guarda e Os Mutantes?




Eu não sei falar, muito menos escrever, sobre rock. Nem me sinto culpada por tanto. Apesar de reverenciar as gerações passadas, também reconheço muitos pontos positivos da minha, se tratando de rock ou não. Mas o melhor mesmo é ouvir. Se a televisão não ajuda, eu dou uma forcinha.



Entre muitos não citados, deixei para o final um dos ícones do rock mundial. Em minha opinião, Freddie Mercury foi um dos melhores cantores de todos os tempos, senão o melhor.
Aumente o som e sinta o porquê:




Precisa de mais?

28.6.09

O que é que o brasileiro tem?


Mesmo não entendendo quase nada de futebol, com o Brasil não tem jeito: sempre compareço, mostrando meu lado torcedora histérica de ser. Mas, normalmente, com minha pouca paciência de ficar sentada assistindo 22 homens exageradamente suados correrem atrás de uma única bola, assisto até os primeiros 40 minutos e analiso o jogo. Se o Brasil estiver infinitas chances de ganha-lo, desisto de torcer para o óbvio e somente ouço os comentários posteriores.

Mas hoje não teve jeito. No meio da tarde de um domingo incomum – porque eu estava, e ainda estou, com aproximadamente oito trabalhos para concluir – eis que surge o Brasil na tela da minha tv. Agi sem pensar. Fui logo me acomodando no sofá verde bandeira da minha sala que, se tivesse almofadas amarelas, eu seria capaz de tirar uma foto. Mas as almofadas são brancas. Acho que verde e amarelo só combinam mesmo lá na telinha. E o branco... bem, o branco precisa de um pouco mais de sorte.

Fiquei impressionada com dois gols adversários. Impressionadíssima, por sinal. Esqueci a pipoca e resolvi ficar ali, até que algo fosse feito. Aonde já se viu perder tão facilmente assim? Pois os 45 minutos se passaram e nada. Resolvi sair do meu sofá verde bandeira, mas prometi voltar para continuar dando aquela força. Senti-me fundamental hoje, como se precisasse de mais um torcedor para empurrar aquela seleção apática de meio de campo. O problema é que eu nem estava lá quando o nosso primeiríssimo gol saiu. Luís Fabiano, né? Quando foi a vez do Kaká, eu até que estava, mas o gol não valeu. Quando os nervos pareciam tomar conta da minha condição de brasileira invencível, fui fazer um café. E, justamente nessa hora, mais um gol nosso. Então, pensei eu, será que eu não devo me aproximar mais dessa televisão horrorosa? Engraçado, nessas horas até as superstições nos embaraçam. Vale tudo pra não deixar aquela seleção branquela tomar de nós o que sempre nos foi dado. Acontece que, de nervosa que fiquei, acabei sentando-me ali mesmo, no chão, para ver no que aquilo tudo iria dar. Sabia que, se terminasse em pênaltis, eu era bem capaz de perder os cabelos e, aí sim, meus trabalhos jamais seriam concluídos.

Esperei 39 minutos. Esperamos, enfim. O Lúcio sempre me chamou atenção por causa daquele jeito desengonçado de jogar. Agora sim aquele tamanho todo foi realmente aproveitado, pensei. O que deu? Brasil, meu Brasil brasileiro. E uma garganta debilitada. Agora eu sei por que nunca assisto ao jogo inteiro.

Lembrei que não estava no meu sofá verde bandeira azarado. Talvez seja hora de trocá-lo. Ou de colocar almofadas amarelas, quem sabe. De qualquer forma, ganhamos mais uma taça, fizemos quatro gols e ainda nos roubaram um. Olha que coisa. Então, que venha a Copa do Mundo. Let’s go, guys!!
Fotos retiradas do site Terra.

20.6.09

Falei e disse




Tá acabada essa parada
E agora cada qual no seu lugar
Não tem nada se a jogada dela
É ver a lua em vez de um lar
Elis Regina
Composição: Banden Powell/Paulo Cesar Pinheiro

23.5.09

Eu também quero uma casa no campo

Quem nunca teve aquela vontade repentina de sumir em plena quarta-feira de trabalho estressante? E pegar no volante ao som do melhor rock n’ roll, sem rumo, sem hora pra voltar? Toda essa mistura de fumaça negra, ruído, aço e concreto pesa o ânimo e derruba a resistência. Mesmo que eu seja capaz de duvidar da minha própria disposição para mudanças drásticas de ambiente, posso admitir que me sinto sim um avestruz de vez em quando. Faço parte da geração coca-cola, de fato, mas a velocidade cotidiana causa vertigem.


O post de hoje foi inspirado na canção do compositor Zé Rodrix, que morreu na madrugada de ontem. É uma das músicas que eu não me canso de ouvir – na voz de Elis Regina, claro.

Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa compor muitos rocks rurais
E tenha somente a certeza
Dos amigos do peito e nada mais
Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa ficar no tamanho da paz
E tenha somente a certeza
Dos limites do corpo e nada mais
Eu quero carneiros e cabras pastando solenes
No meu jardim
Eu quero o silêncio das línguas cansadas
Eu quero a esperança de óculos
Meu filho de cuca legal
Eu quero plantar e colher com a mão
A pimenta e o sal
Eu quero uma casa no campo
Do tamanho ideal, pau-a-pique e sapé
Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos e livros
E nada mais

28.4.09

Educar-se




O sumo prazer humano
Sente o ser que é seduzido
Não apenas pela leitura
Mas, sobretudo, pelo livro
Porque o livro é o corpo
E a leitura, o espírito...

[desconhecido].

24.4.09

O Sonho de Uma Noite de Verão

Alguns boatos sobre o Dia Mundial do Livro fizeram-me pesquisar sobre o assunto e confirmar realmente que ontem, dia 23 de abril, foi comemorado o dia Mundial do Livro. Ontem foi um dia daqueles. Mas com ou sem intenção, eu resolvi comemorar da melhor forma: comprando um livro. Na verdade, não é exatamente disso que vim falar aqui, mas sim da grande coincidência - ou nenhuma, que é o mais provável - de que ontem foi também o aniversário de vida e de morte de um dos maiores e mais influentes poetas e dramaturgos da história: William Shakespeare. Mesmo parecendo impossível falar do próprio sem falar da conhecidíssima história de amor de Romeu e Julieta ou mesmo citar to be or not to be em algum canto da tela, contenho-me a dizer sobre O Sonho de Uma Noite de Verão, a história divertida e romântica de Shakespeare. Através de rumos inevitáveis, conheci Demétrio, Hérmia, Lisandro, Puck, Oberon e Titânia - essa, uma verdadeira e poderosa rainha élfica da qual tive certo assombro. Todo o mundo mágico de duendes e fadas traz consigo a ideia do surgimento de grandes possibilidades numa noite de verão, quando tudo torna-se possível. Achei uma delícia, não nego.
Leia na íntegra: www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000090.pdf A quem só interessar mais tarde, deixo o último momento da história, quando um espírito da floresta se despede da platéia:

PUCK - Se vos causamos enfado por sermos sombras, azado plano sugiro: é pensar que estivestes a sonhar; foi tudo mera visão no correr desta sessão. Senhoras e cavalheiros, não vos mostreis zombeteiros; se me quiserdes perdoar, melhor coisa hei de vos dar. Puck eu sou, honesto e bravo; se eu puder fugir do agravo da língua má da serpente, vereis que Puck não mente. Liberto, assim, dos apodos, eu digo boa-noite a todos. Se a mão me derdes, agora, vai Robim, alegre, embora.

21.4.09

A prisioneira da memória - mudança de padrão

Hoje estive recapitulando certas disposições do blog e achei que eu deveria ousar mais por aqui. Acalme-se. A minha ideia não ultrapassa muito os padrões de blog que existem por aí. Não ultrapassa nada. Gostaria de somente começar a postar coisas diferentes, como uma matéria de jornal ou uma letra de música, de vez em quando. Diferente do que foi postado aqui até agora, claro. Fora isso, não será nada muito extraordinário. Acho que a tendência vai ser sempre essa... o blogueiro sobrevivente deve sempre estar disposto a novas ideias. Por isso, hoje compartilho aqui uma matéria que li na Superinteressante de um bom tempo atrás e peço desculpas por não saber exatamente quando foi, mas já pensando nisso, dei uma pesquisada na internet e descobri a mesma reportagem no site da revista Época. A matéria me chamou tanta atenção que há 3 meses atrás eu a apresentei durante cinco minutos em um curso de curta duração. Trata-se de uma americana, de 42 anos, capaz de relembrar cada detalhe de sua vida a partir dos 14 anos de idade. Interessante, não? Jill Price consegue contar e recontar sua história em detalhes para quem quiser ouvir, mas convive com uma verdadeira pedra no meio do caminho, ou melhor, no meio da sua vida. Da mesma forma que Jill lembra dos melhores momentos da sua vida, ela também não esquece os piores, os mais difíceis. Esse contato eterno com o passado é incrível e ao mesmo tempo terrível, só de pensar. Portanto, utilizo de uma questão levantada pela própria revista Época, parando por aqui: Mas será que estaríamos dispostos a arcar com o peso de tantas lembranças? Eis a questão. Quem quiser saber os detalhes dessa história, veja a reportagem completa no site da revista Época. Acabou surgindo um poemeto, só pra fechar:



quem não se lembra
daquele fato
daquele abraço
daquele laço
daquele espaço?
e finge não saber que tudo só existe
porque o esquecer
nem sempre insiste?
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