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28.1.10

Leitura, pura leitura?

Quando vi a notícia no jornal que falava a respeito da morte de J. D. Salinger, o autor de "O apanhador no campo de centeio" (The Catcher in the Rye), lembrei-me instantaneamente de um caso de assassinato ao que o grande romance está ligado: o assassinato de John Lennon. Lendo algumas opiniões e coisas a respeito, descobri que, na verdade, há outras ligações, como a que existe com o homem que tentou matar Ronald Reagan. Tanto um, quanto o outro, teriam tirado a “inspiração” para os crimes por meio da história de Salinger.




Lendo ou não este livro, sabendo ou não da história, podemos entender que todo o alicerce da obra está no comportamento humano, o que nos faz – leitores – chegarmos a conclusões a esse respeito. Cá entre nós, existem vários livros – ou talvez todos? – que são capazes de chegarem ao menor neurônio que seja, instigarem nossos desejos, manipularem nossas decisões... Um personagem aqui, outro acolá, e tudo o que é leitura ficcional acaba sendo leitura atual, carnal – e, por que não, real?



O que dizer sobre o apanhador? Leitura, pura leitura? Lanço Barthes que fala melhor do que ninguém a esse respeito:



"Apresentam-me um texto. Esse texto me enfara. Dir-se-ia que ele tagarela. A tagarelice do texto é apenas essa espuma de linguagem que se forma sob o efeito de uma simples necessidade de escritura. Não estamos aqui na perversão, mas na procura. Escrevendo seu texto, o escrevente adota uma linguagem de criança de peito: imperativa, automática, sem afeto, pequena debandada de cliques (esses fonemas lácteos que o jesuíta maravilhoso, van Ginneken, colocava entre a escritura e a linguagem) são os movimentos de uma sucção sem objeto, de uma oralidade indiferenciada, separada da que produz os prazeres da gastrosofia e da linguagem. O senhor se dirige a mim para que eu o leia, mas para si nada mais sou que essa direção; não sou a seus olhos o substituto de nada, não tenho nenhuma figura (apenas a da Mãe); não sou para si um corpo, nem sequer um objeto (isto pouco se me dá: não é a alma que reclama seu reconhecimento), mas apenas um campo, um vaso de expansão. Pode-se dizer que finalmente esse texto, o senhor o escreveu fora de qualquer fruição; e esse texto-tagarelice é em suma um texto frígido, como o é qualquer procura, antes que nela se forme o desejo, a neurose". (ROLAND BARTHES,1987)


Confira o Download do livro aqui.



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