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5.1.12

Hoje a festa é nossa e de quem quiser?


Muito bem. As férias estão aí e eu não parei com minhas leituras não. Algumas pessoas já me chamaram de nerd ou soltaram um “tadinha!” só porque agora tenho tempo para as minhas leituras, as leituras sem compromisso, as leituras que eu quiser, as pessoas acham que estou sofrendo ou coisa parecida. Dentre os vários sites que compõem minha lista de favoritos no Google Chrome está o Observatório da Imprensa, que eu leio pouco, mas intensifiquei a leitura graças às adoráveis férias. Eu indico, inclusive, para o ano todo, e todos os anos. Li principalmente este artigo (é só clicar para saber) do professor Luís Eustáquio Soares (professor da UFES, poeta e muito mais), que escreve sobre a utopia, a ilusão que a mídia cria em torno dessa tal liberdade democrática tão hierárquica e elitista que temos hoje. Fala ainda da carnavalização gerada em torno da apropriação da cultura popular e o que o famoso plim plim global tem a ver com isso. Assim, o artigo discute com muita propriedade aspectos que nós, telespectadores ativos e ao mesmo tempo inativos, precisamos nos atentar. Além disso, tantas dúvidas brotaram diante de um assunto tão complexo, que o professor fez este outro artigo, que responde a uma pergunta feita por mim mesma. Leitura de férias? Não, não. Leitura obrigatória para toda época. Por falar em leitura obrigatória, abaixo vai um trecho do mais recente romance-povo, romance-novo, romance-rizoma, como já foi chamado, do professor mencionado. É pra não perder de vista:


Nessas vidas, ganhamos perdemos nossos dias, com nossas mediocridades, campo de barbáries gerais, de modo que, morando também nesses insuportáveis vazios, escrevo também vazios como o de dar/desagradar-me perante os meus ímpares, pra me ajudar no currículo, e, como não sou exatamente um carreirista, ou um imbecil positivista, completamente alienado – olha esta palavra fora de moda, um alienado, quase boto uma exclamação! – e envolvido com seu próprio umbigo, embora seja ou tenha um pouco ou um muito disso tudo, confesso que também continuo a escrever porque tenho, e como não basta, como se fosse vantagem, que apenas eu os tenha, porque temos aqueles cheios e vitais mundos ausentes em nós, esses que ausentam as infames presenças soldadescas de escritas meramente literárias, esteticamente consensuais, de ilustrados reacionários e, panfletário que sou, arrivista que sou, engajado que sou, preciso plenamente começar a estar, a tocar as perturbações, pois sei que só a morte é meu limite, e todos morremos.

[Tirado de O evangelho segundo satanás, 2010, Vitória-ES, Lei Rubem Braga de Cultura]


20.12.11

Onde esconder minha cara?


[...] Onde esconder minha cara? O mundo samba na minha cabeça.
Triângulos, estrelas, noite, mulheres andando,
presságios brotando no ar, diversos pesos e movimentos me chamam a atenção 
o mundo vai mudar a cara,
a morte revelará o sentido verdadeiro das coisas.
Andarei no ar.
Estarei em todos os nascimentos e em todas as agonias,
me aninharei nos recantos do corpo da noiva,
na cabeça dos artistas doentes, dos revolucionários.
Tudo transparecerá:
vulcões de ódio, explosões de amor, outras caras aparecerão na terra,
o vento que vem da eternidade suspenderá os passos
dançarei na luz dos relâmpagos, beijarei sete mulheres
vibrarei nos cangerês do mar, abraçarei as almas no ar
me insinuarei nos quatro cantos do mundo.
[...]
Murilo Mendes escreveu aos 24 anos, na publicação Antropofagia.

19.9.10

Por isso, a certa altura, minha pena se pôs a correr. Corria ao encontro dele; sabia que não tardaria a chegar. A página tem o seu bem só quando é virada e há a vida por trás que impulsiona e desordena todas as folhas do livro. A pena corre empurrada pelo mesmo prazer que nos faz correr pelas estradas. O capítulo que começamos e ainda não sabemos que história vamos contar é como a encruzilhada que superamos ao sair do convento e não sabemos se nos vai colocar diante de um dragão, um exército bárbaro, uma ilha encantada, um novo amor.
[Ítalo Calvino, O Cavaleiro Inexistente, p.115]

Post por causa da Marília, que resolveu reler o livro. Ah, também por causa do dragão.

20.7.10

Amigo? Aí foi isso que eu entendi? Ah, não; amigo, para mim, é diferente. Não é um ajuste de um dar serviço ao outro, e receber, e saírem por este mundo, barganhando ajudas, ainda que sendo com o fazer a injustiça aos demais. Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou – amigo – é que a gente seja, mas sem precisar de saber o porquê é que é.
(Grande Sertão: Veredas - p.196)

23.11.09

ensaio


"[...] uma vontade de enrolar-se sobre si mesma, os olhos, ah, sobretudo os olhos, virados para dentro, mais, mais, mais, até poderem alcançar e observar o interior do próprio cérebro, ali onde a diferença entre o ver e o não ver é invisível à simples vista."
de Ensaio sobre a cegueira, J.S. p. 158
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